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Jota Mossadihj

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‘Nunca gostei de comer. Nem aprendi a mastigar direito porque prefiro engolir direto para não sentir o gosto. Em casa, só me alimentava de salada, bem picadinha. Agora, eu tenho de comer alimentos pastosos e não posso mais tomar laxantes. São as únicas coisas ruins daqui.’

Assim, João (nome fictício), de 21 anos, resume sua relação com os alimentos Com 1,84 metro de altura de 58 quilos, sofre de anorexia e, há três semanas, teve de interromper o curso de Educação Artística no qual está matriculado para se internar no Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares do Hospital das Clínicas de São Paulo (Ambulim).

Após identificar um crescimento no número de homens à procura de tratamento, a direção do ambulatório decidiu formar uma equipe para atendimento especializado ao sexo masculino, segundo o psiquiatra Táki Cordás, coordenador-geral do Ambulim. Iniciativa pioneira no mundo, o serviço dirigido especificamente a homens começou há seis meses – bem antes de a anorexia e a bulimia virarem notícia, em razão da morte da modelo Ana Carolina Reston. E a resposta obtida revela que o problema é bem mais freqüente do que se imaginava entre os homens.

Essa postura controladora é um dos obstáculos à recuperação. ‘Muitas vezes, não é fácil convencê-los de que estão doentes e que precisam seguir o tratamento indicado’, relata Cangelli.

Distúrbios causados por associações entre fatores biológicos (maior ou menor propensão genética) e ambientais (relações interpessoais e influências socioculturais), anorexia e bulimia exigem um tratamento que requer abordagem multidisciplinar, com a participação de psiquiatras, psicólogos e nutricionistas.

‘Sinto gordura onde vêem magreza’

Mesmo com 58 kg e 1,84 m, João não acha que está doente; mas já evitou tomar banho para não tocar o corpo

‘Ainda não estou totalmente convencido de que tenho um distúrbio, uma doença. Às vezes, ainda penso que é um estilo de vida’, conta João, antes de relatar parte do que tem enfrentado. ‘Já passei semanas sem fazer a barba, por medo de me ver no espelho. Também não queria tomar banho para não ter de tocar o meu corpo. Eu vejo e sinto gordura onde as outras pessoas só vêem magreza.’

A distorção da imagem corporal, característica fundamental da anorexia e também presente na bulimia, faz seus portadores se considerarem gordos, mesmo quando esquálidos, e produz relações extremadas com o espelho. ‘Há os casos de pavor, como o de João, e os de fixação. Uma paciente minha passava quatro horas por dia diante do espelho’, relata o psicólogo Raphael Cangelli Filho, que frisa o equívoco de quem associa o transtorno à mera vaidade. ‘Os pacientes não se admiram ao espelho. Eles se vigiam, e rejeitam a própria imagem. Essa não-aceitação de si mesmos vem da baixa auto-estima, outro aspecto central desse problema.’

Estudante de Administração de Empresas, José (nome fictício) conta que procurou tratamento depois que começou a sofrer desmaios, inclusive na faculdade. ‘Nunca fui de comer muito, mas o problema piorou quando meu pai me disse que eu teria de pagar pelo que comia em casa. Eu tinha 15 anos. Nunca mais consegui comer em casa e comecei a vomitar sem querer, após as refeições.’

Com 49 quilos e 1,73 metro, José tem 18 anos e apresenta sintomas de bulimia, como a purgação – hábito de ’se livrar’ do que é ingerido por meio de vômitos, laxantes ou prática compulsiva de exercícios. Quanto aos vômitos involuntários relatados pelo rapaz, Cangelli esclarece: ‘ocorre com pessoas que provocam o vômito muitas e muitas vezes.’

Pesquisa mostra incentivo à magreza na mídia

O psiquiatra Táki Cordás, a coordenadora da equipe de nutrição do Ambulim, Fernanda Scagliusi, e a estudante de nutrição Mariana Garcia concluíram, nos últimos dias, uma pesquisa sobre a forma como a mídia reflete a supervalorização da beleza e da magreza. Segundo Fernanda, a análise de três revistas de repercussão nacional revela uma grande quantidade de incentivos a dietas desequilibradas e ao consumo de produtos que prometem ‘revoluções da aparência’, além de prevalecer o culto à magreza e a ridicularização do sobrepeso.

‘Não se trata de acusar a mídia como se ela fosse a única responsável por tudo isso, mas de cobrar abordagens mais conscientes e críticas em relação a obsessões da cultura contemporânea’, explica Fernanda. Obsessões que, associadas a certas predisposições biológicas e circunstâncias pessoais, resultam no crescimento da incidência de transtornos como anorexia e bulimia.

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